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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O sabor do gesto


Acordou e sentiu o peso de seus quase 60 anos . Esticou-se, sentou, olhou em volta “cadê meu chinelo? ... ah! Aqui.” O hábito de madrugar o fez enrugar a testa ao olhar no relógio. “São seis e meia, dormi demais.”Com passos lentos e pensamentos soltos foi até o banheiro, aliviou, olhou o vitrô “vai fazer calor de novo”. A água da torneira estava gelada, ao senti-la no rosto finalmente despertou. Olhou no espelho, encarou-se e o tempo parou. Ele pensou na filha, faz dias que eles não se veem. Inspecionou as rugas, um pouco mais profundas “elas não estavam assim ontem, ou estavam? Por que dizem que ela se parece comigo?” Injuriou-se por um segundo “eu tô velho”, mas rapidamente sorriu. “Sim, ela parece comigo” e ao olhar-se mais de perto completou: “mas não desse jeito, com essa cara amassada”.

Depois do café anunciou “Vou sair” e seguiu em busca de um presente, parou na primeira loja de 1,99, “quero que ela saiba que me lembrei dela, na verdade eu quero é que ela seja feliz”.

Em meio a milhares de opções de lembrancinhas para meninas, ele ficou confuso. No fundo, ele admitiu nunca ter entendido as mulheres e muito menos a centena de acessórios que as cercam. Emcabulado e temendo que alguém viesse lhe oferecer ajuda, olhou presilhas de cabelo, diários enfeitados “será que ela escreve diários?”, pulseiras, brincos, anéis, tiaras, lenços, colares, pincéis “para que tantos tamanhos?”. Viu um porta batom, pegou, olhou por um momento e hesitou ao questionar se qualquer batom caberia ali “deve caber...  é, acho que sim, vou levar”.

O objeto era dourado e tinha algumas flores. “É bonito, vou levar um espelho também, mas qual?”. Ele parou reflexivo entre o que tinha estampa de flores azuis, o preto com um gato e um rosa com a foto de uma boneca loira, pegou o último. “Gostei desse com o desenho da menina bonitinha, ela vai gostar”. 

Com passadas firmes o homem carregava dois pequenos objetos delicados em direção ao caixa. A moça, ao olhar o estojo de batom e o espelhinho enfeitados, o encarou desconfiada, mas rapidamente disfarçou, mas não a tempo dele não perceber. “É para minha filha”, justificou. Ela imediatamente sorriu e pensou que a garota iria adorar o presente e a imaginou em frente ao espelho passando um batom sabor cereja. Mas não pôde deixar de pensar que ele era velho demais para ter uma filha naquela idade.

Ao sair da loja ele estava satisfeito com a compra, imaginou a reação da filha. Iria juntar os pequenos objetos ao cd que ele gravou pra ela na véspera. Decidiu ligar, saber se estava tudo bem. “Está sim pai, tô saindo da aula agora”.

Ao desligar, ele percebeu que não embrulhou  para presente, procurou em casa e não tinha nenhum papel bonito, mas achou um envelope pardo. Escreveu o nome da filha no topo e enviou.

Mais tarde, a filha abriu o envelope com a curiosidade de sempre. Pegou o estojo de batom, o espelho, o cd e sorriu. Um riso que o pai já conhecia, mas não pode ver. Ela suspirou e sorriu de novo, aquele era o seu pai. E num piscar de olhos, aquela professora universitária de 37 anos, voltou aos seus 13, sentiu-se uma garotinha novamente.

2 comentários:

  1. Ai que delicado, que lindo. A gente não percebe o tempo, ou percebe e tenta correr atrás dele? As sutilezas nos marcam pro resto da via.

    Amo vocês!

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  2. Que delícia!

    Me senti uma garotinha, sorri.

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